O dia em que um jato da FAB quase colidiu com um boeing
Exclusivo: uma gravação obtida pelo Fantástico mostra o momento exato em que um avião da Força Aérea Brasileira quase bateu em um Boeing da Gol.
As aeronaves estavam sobre a Amazônia, uma região que, para muitos especialistas, tem a pior comunicação aérea do país.
A respiração ofegante é de um piloto da FAB, a Força Aérea Brasileira. No comando de um turbo-hélice tucano, ele se aproximava de um aeroporto.
Piloto: O grifo 127 informa que livrou a três mil pés, descendo pra dois mil pés.
Controlador: Ciente, grifo 127.
O piloto é do esquadrão Grifo, uma equipe de elite da FAB, com base em Porto Velho, Rondônia. As informações estão em um relatório de perigo, com timbre do Cenipa, o Centro de Investigação e Prevenção de Acidentes Aeronáuticos.
O piloto e o instrutor, também da Força Aérea, realizavam uma missão de treinamento. De repente, um susto enorme: bem perto deles, surgiu um Boeing 737 da Gol.
“O que aconteceu foi que o Gol passou por cima da gente aqui, quase bateu na gente”, disse o instrutor.
Esse trecho faz parte de uma gravação de áudio de cinco minutos, obtida com exclusividade pelo Fantástico. Os documentos a que também tivemos acesso revelam que o incidente ocorreu no dia 18 de junho deste ano, sobre Rio Branco, no Acre.
Levamos o material para um especialista em segurança aérea, que já foi instrutor de vôo em aviões tucano. Depois de analisar tudo, ele avalia: foi sorte não ter acontecido mais uma tragédia na aviação brasileira.
“Foi um incidente muito grave. Houve uma proximidade muito grande, com risco alto de colisão em vôo”, alerta o especialista em segurança de vôos, Jorge Barros.
De acordo com os documentos, o avião da Gol fazia o vôo 1938. Este vôo sai diariamente de Cruzeiro do Sul, no Acre, e faz escalas em Rio Branco, Porto Velho, Manaus, Belém e Fortaleza.
O áudio mostra que a quase colisão aconteceu quando o Boeing e o tucano do esquadrão Grifo se aproximavam do aeroporto de Rio Branco. O mesmo controlador era responsável pelos dois vôos.
Piloto: Grifo 127, na perna de aproximação.
Controlador: Está livre o procedimento x-ray. Informe visual com a pista, Grifo 127.
Piloto: Grifo 127, chamará.
De acordo com a gravação, cerca de um minuto e meio depois, o controlador autorizou o piloto do Boeing a fazer o mesmo procedimento de aproximação do aeroporto.
Controlador: Informe iniciando a perna de aproximação.
Piloto da Gol: Já está na perna de aproximação, descendo pra 3 mil (pés).
Controlador: Já está autorizado iniciar o procedimento x-ray.
“Dois aviões são autorizados para descer para a mesma altitude, fazer a mesma aproximação para a mesma pista, digamos, no mesmo segmento do espaço aéreo”, explica Jorge Barros.
A cerca de 15 quilômetros do aeroporto de Rio Branco, a 450 metros de altura, os pilotos do tucano viram o tamanho do perigo. A quantidade de palavrões dá idéia do espanto que tiveram.
“Como o avião da Gol é a jato e voa muito mais rápido que o avião da Força Aérea, então esse avião da Gol se aproxima muito do avião da Força Aérea e passa a 200 pés de altura do avião da FAB”, comenta Jorge Barros.
Duzentos pés são pouco mais de 60 metros. Para se ter uma idéia de como os aviões passaram perto um do outro, as asas do Boeing têm cerca de 30 metros; as do tucano, 10. Logo depois da quase colisão, o instrutor que estava no tucano falou com o controlador. Ainda bastante nervoso, o instrutor da FAB passou orientações.
Instrutor: Rio Branco, Gol pode prosseguir na aproximação final. O que aconteceu foi que o Gol passou por cima da gente aqui, quase bateu na gente. Pode prosseguir aí que a gente está no visual. Está ok, Rio Branco? Copiou?
Controlador: Afirmativo, foi copiado, senhor.
A gravação mostra que, na seqüência, o instrutor do tucano faz uma pergunta para o piloto do Boeing.
Instrutor: Gol, confirme. Você entendeu que poderia prosseguir no ILS?
No áudio a que tivemos acesso, o piloto da Gol não responde se entendeu ou não que poderia continuar a aproximação por instrumentos. A seqüência final é esta:
Piloto: Que medo!
Piloto da Gol: Gol 1938 está arremetendo.
O vôo 1938 chega todos os dias no aeroporto de Rio Branco lotado, com mais de 180 pessoas. Quem estava no Boeing que quase bateu no avião da FAB provavelmente não percebeu o perigo. Mas, naquele dia, o momento mais tenso dos passageiros foi quando o jato da Gol arremeteu e teve que fazer uma nova manobra para aterrissar.
“Cada vez que o avião passa um susto grande, ele desiste de pousar. Agora, o acaso esteve presente aí e a ausência de colisão foi mero acaso”, alerta o especialista em segurança aérea.
Procuramos os pilotos que se envolveram neste incidente, mas os da FAB não foram localizados. Por telefone, falamos com o piloto do Boeing. O comandante Carlos Joubert confirmou o incidente, mas não passou nenhum outro detalhe. Segundo ele, por determinação da Gol.
“Gostaria muito de colaborar, mas não posso contrariar o que a empresa determinou para mim”, justifica o comandante.
Procurada pelo Fantástico, a Gol enviou uma nota, que também não dá esclarecimentos sobre o incidente. A empresa diz que segue os procedimentos de segurança e que os eventos que mereçam registro são feitos dentro dos padrões estabelecidos pelas autoridades competentes.
Também em nota, a Aeronáutica informa que em nenhum momento houve uma situação crítica de quase colisão. Mesmo assim, foi feita uma avaliação que concluiu deficiências de procedimento por parte do controlador de vôo.
“A estrutura de trabalho é deficiente”, aponta Roberto Sobral, advogado da Federação Brasileira dos Controladores de Vôo.
Segundo ele, há falhas de comunicação e faltam até equipamentos como radares. Essas alegações fazem parte de uma ação penal movida há dois meses pela Federação contra o comando da Aeronáutica no Supremo Tribunal Federal.
“Nós queremos uma auditoria isenta para que sejam apontadas as falhas e nós possamos corrigir. Queremos sair dessa situação de risco em que vive a sociedade civil brasileira”, garante Roberto Sobral.
Segundo a Aeronáutica, cerca de 600 novos controladores foram capacitados para o trabalho nos últimos dois anos. Ainda segundo a Aeronáutica, na torre de Rio Branco a operação é coordenada de forma convencional, via rádio, em razão da baixa demanda de tráfego. Mas afirma que existe cobertura de radar plena para aeronaves comerciais que voam naquela região.
O especialista em segurança aérea, Jorge Barros, dá um alerta. Segundo ele, ainda há muito que fazer para evitar situações de risco, como aconteceu com o vôo 1938.
“Foi pura sorte não ter havido um acidente. Por isso é fundamental que a equipe de controladores seja bem escolhida, bem treinada e bem equipada para que ela possa desenvolver um trabalho de excelente qualidade”, aconselha ele.
segunda-feira, 15 de setembro de 2008
EXCLUSIVO: Uma quase tragédia aérea
Postado por Grupo Dathica de Comunicação às 14:32:00
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